Na próxima semana, começa o primeiro treinamento de diplomatas brasileiros em temas do agronegócio. Promovido pelo Ministério da Agricultura em parceria com o Ministério das Relações Exteriores, o programa levará profissionais que ocupam postos estratégicos em países da África, Américas, Europa, Ásia e Oriente Médio para conhecer propriedades rurais e agroindústrias, como frigoríficos, laticínios e usinas de etanol. Em duas semanas, os diplomatas passarão por municípios de Minas Gerais, Pernambuco, Bahia, São Paulo e Paraná. A ideia do Ministério da Agricultura é que esses profissionais ajudem a solucionar problemas burocráticos que o Brasil enfrenta no comércio exterior.
A iniciativa - obviamente louvável - é uma reivindicação antiga do setor rural. Associações e empresários que lidam com as embaixadas brasileiras diziam que era assustadora a falta de conhecimento da chancelaria em relação ao agronegócio nacional. Só para se ter uma idéia os diplomatas brasileiros que estavam envolvidos nas disputadas do açúcar e do algodão na Organização Mundial do Comércio foram orientados por advogados americanos e europeus (pagos pelas respectivas associações de produtores) que conheciam os meandros da legislação internacional. Se o pelotão da diplomacia brasileira não tem conhecimento sobre o agronegócio nacional (e são eles que tocam o dia a dia das embaixadas), quem irá defender a produção agrícola brasileira na batalha do comércio global?
Sabe aquela situação terrível, horrorosa mesmo, mas que no final pode solucionar para valer um problema? É assim que eu entendo a repercussão do relatório do Greenpeace sobre a pecuária na Amazônia. A ONG e o Ministério Público do Pará acusam 11 frigoríficos (entre eles Bertin e Minerva) de adquirir gado em áreas de desmatamento na região Amazônica. Obviamente, o clima pesou na pecuária. A reação mais onerosa veio dos três maiores varejistas no Brasil - Carrefour, Wal-mart e Pão de Açúcar-, que na quinta-feira anunciaram a suspensão de compras de carne desses abatedouros. Os grandes frigoríficos, naturalmente, começaram a se mexer. O Friboi acabou de enviar um comunicado para as redes afirmando que "proíbe a compra de animais vindos de propriedades que operam de forma ilegal no que diz respeito a responsabilidade socioambiental". Outros grandes frigoríficos devem estar se explicando para os seus clientes - dentro e fora do Brasil. E mais do que argumentos bem-intencionados, devem estar passando um pente fino na cadeia de fornecedores.
Quem perde com a situação? Os pecuaristas que produzem ilegalmente na região Amazônica - e não é pouca gente, não. Quando o Pão de Açúcar diz que não compra e o Bertin transmite o recado, não sobra espaço para o criador ilegal. É óbvio que, no curto prazo, o episódio deve causar algum prejuízo para o setor da carne - especialmente num momento em que a cadeia frigorífica tenta se recuperar do baque pós-crise. Mas, no longo prazo, quem não transformar o discurso de sustentabilidade no campo em ação de fato, será jogado para escanteio. Não adianta mais relutar.