Calma. Resista à tentação de quebrar o computador e fazer comentários depreciativos sobre a profissão da mãe do blogueiro (diretora aposentada de escola pública). Bancos têm sido um péssimo negócio, pelo menos para quem comprou suas ações.
A imprensa comentou fartamente os lucros recordes de Bradesco, Itaú e Unibanco, além dos bons números do Santander. O ano de 2007 foi tão bom para os bancos que até o estatal BNDES obteve um lucro superior a sete bilhões de reais (está certo que 6,1 bilhões foi com o ganho da carteira de ações do banco, mas isso é um mero detalhe). Mesmo assim, os acionistas minoritários têm poucos, pouquíssimos motivos para comemorar. Com duas exceções, suas ações têm ficado bem abaixo do índice Bovespa.
Vamos aos números, levantados aqui com uso do sistema Economática. O período de análise foi até o dia 18 de fevereiro:
1) dos dez bancos que abriram capital em 2007 (ABC Brasil, BicBanco, Cruzeiro do Sul, Daycoval, Indusval, Panamericano, Patagonia, Paraná, Pine e Sofisa), oito viram suas ações perderem para o Índice Bovespa.
Na média, os papéis dos bancos recém-chegados ao mercado caíram 9,3%, enquanto o Índice Bovespa caiu 1,7% A maior perda foi do banco Pine, 18,5% em relação ao Ibovespa. Só dois ganharam do índice: Paraná Banco 11,5%) e Cruzeiro do Sul (5,6%)
2) As ações dos seis bancos de grande porte listados na Bolsa de São Paulo (Banco do Brasil, Bradesco, Itaú, Nossa Caixa, Santander e Unibanco) perderam em média 3,2, o que representou uma perda de 1,5% em relação à variação do Índice Bovespa.
Unibanco ON foi a ação que teve o pior desempenho, com uma queda de 14,5%. O melhor desempenho foram as ações ordinárias do Santander, que subiram 8,7%, seguidas pelas ações ordinárias da Nossa Caixa, que avançaram 4,7%.
É relativamente simples explicar o mau desempenho das ações dos dez bancos recém-chegados ao mercado. Esse grupo chegou de uma só vez, disputando os mesmos investidores. Todos são igualmente concorrentes no competitivo mercado de crédito. Além disso, são instituições de pequeno porte, mais suscetíveis, portanto, aos solavancos da economia.
Como explicar, porém, o fiasco do gigantes no pregão? Os analistas alinhavam três explicações:
- a crise internacional no crédito. A aparentemente interminável série de prejuízos divulgados pelos bancos gerou uma onda de má-vontade generalizada em relação a essas ações. Nesta terça-feira, foi a vez do Credit Suisse. O bancão tinha escapado incólume dos problemas do subprime, mas anunciou que "erros de precificação cometidos por operadores" o forçaram a realizar uma baixa contábil de 2,85 bilhões de dólares. Tudo bem, foi apenas um errinho de quase três bilhões de dólares, nada sério, mas é mais uma notícia ruim para um setor que só tem apanhado nos últimos tempos.
- a antecipação dos bons resultados. Uma das mais consagradas regras do mercado acionário manda comprar no boato e vender no fato. Por isso, as ações subiram com a expectativa e lucros estratosféricos e cederam parte desse ganho com a confirmação desses lucros.
- um redução estrutural do lucro dos bancos a partir de 2008. Boa parte dos ganhos registrados em 2007 derivaram de eventos únicos, como as aberturas de capital da Redecard (que beneficiou o Itaú e o Unibanco, por exemplo), da Bovespa e da BM&F (que turbinaram em maior ou menor grau os ganhos da turma toda. Esses ganhos são conhecidos no jargão financeiro como não-recorrentes, ou seja, não dá para repetir todo ano. Assim, em 2008 esperam-se ganhos menores.
Há mais um fato. O crédito vem crescendo espantosamente no Brasil. Alguns segmentos, como o crédito imobiliário e o financiamento de automóveis, vêm se expandindo a taxas de dois dígitos. Esse ritmo de expansão deve diminuir. Mais do que isso, a qualidade geral do crédito brasileiro deverá piorar levemente. É algo matemático: primeiro os bancos emprestam dinheiro para os melhores clientes (que oferecem menos risco), depois para os clientes um pouco mais arriscados, e assim por diante. Nada sério, nada que se compare nem de longe aos problemas dos bancos nos Estados Unidos, mas sempre um problema estrutural que terá de ser resolvido pelo sistema, com reflexos negativos no lucro e nos preços das ações.

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