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Onde procurar as causas do apagão 2
Por Malu Gaspar | 13/11/2009 - 07:38
  Acho que já ficou claro no post anterior que problemas nas linhas de transmissão de Itaipu eram mais do que previsíveis. Mas não dá para atribuir tudo à fragilidade das linhas. Até onde sei, duas outras providências poderiam ter ajudado a evitar o apagão. Digo até onde sei porque tenho certeza de que muitas outras informações novas sobre esse sistema de transmissão de Itaipu ainda vão aparecer. Mas vamos lá:


Desde o início ano passado, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) já previa a necessidade de construir uma outra linha de transmissão, ligando Foz de Iguaçu a Cascavel (no meio do caminho entre Foz e Ivaiporã), A previsão foi feita no planejamento estratégico da estatal para o período de 2008 a 2012 e repetida no plano de 2009 a 2012. Segundo a EPE, a nova linha de transmissão serviria para o "aumento de confiabilidade do sistema integrado nacional no caso de perdas múltiplas de circuitos do tronco de 750 kV (que é o de Itaipu)". A nova linha era necessária para o final de 2008. Como o prazo de construção estimado era de 24 meses - ou seja, na melhor das hipóteses, só ficaria pronta em 2010 - pode-se concluir que, no momento em que foi prevista, a obra já estava atrasada. Mesmo assim, só no início de setembro passado a Superintendência de Regulação dos Sistemas de Transmissão da Aneel, a agência reguladora do setor elétrico, realizou a licitação da linha Foz-Cascavel.


Uma fonte que participou desse processo garante que não era do interesse de Furnas permitir a entrada da linha Foz - Cascavel Oeste. Furnas é a dona da rede de transmissão de Itaipu e recebe uma taxa diferenciada, com prêmio, para transmitir essa energia. A nova linha colocará o status das linhas de Furnas como "rede básica", com uma remuneração sem prêmio, o que não é de interesse da empresa. Não sei se a responsabilidade pelo atraso da linha Foz - Cascavel Oeste é ou não de Furnas. Mas é fato que, se já tivesse em operação, no momento em que as outras três linhas de transmissão ficaram fora de operação, essa linha continuaria a transmitir boa parte da energia que deixou de circular no sistema quando as linhas de Furnas deram pau. Isso poderia minimizar ou mesmo eliminar o apagão.


Outra questão igualmente importante é a forma como o ONS lidou com a rede na hora em que as linhas de transmissão pararam de funcionar. Quem entende do assunto afirma que houve uma barbeiragem na hora de manejar a distribuição da carga sobre o sistema. Isso porque Itaipu tem cerca de 12 mil MW de potência, dividida em dois blocos de 6 mil MW. Apenas as linhas que partem de um desses blocos de geração foram as que saíram de operação. O sistema brasileiro perdeu portanto metade de itaipu (que provavelmente não era de exatos 6 mil MW, mas boa parte disso). Tudo que um sistema elétrico precisa para funcionar bem é que a geração seja igual ao consumo ("carga"). Para haver um equilíbrio na rede, seria necessário que o operador retirasse rapidamente do sistema carga igual à que havia sido perdida – ou seja, os tais 6 mil MW. O ONS faz isso ordenando que as empresas distribuidoras desliguem alguns de seus consumidores, evento chamado no setor de "corte de carga". Se tivessem sido desligados apenas os 6 mil MW que foram perdidos, em muito menos tempo o ONS reorganizaria a geração do sistema e voltaria atender essa carga. Seria um mini-apagão, mas corrigido muito mais rapidamente, e de forma ordenada para prejudicar o mínimo de consumidores possível. Mas o ONS tentou reorganizar o sistema sem desligar consumidores. O resultado foi o que se viu. O sistema desmontou e um total de 29 mil MW foram desligados na hora do apagão. Foram necessárias horas para a rede se recompor. Até a outra metade de Itaipu, que o Brasil compartilha com o Paraguai, foi desligada no efeito dominó. Ou seja, saíram de circulação, abruptamente e sem necessidade, no mínimo 23 mil MW, que estavam sendo gerados normalmente por outras usinas.


Como o ONS sabe da necessidade do balanço carga-geração tanto quanto qualquer outro técnico do setor elétrico, o que provavelmente ocorreu foi uma falha nos esquemas de emergência, que não atuaram ou atuaram indevidamente; ou mesmo receio das implicações políticas que um corte de carga autorizado poderia ter. Parece que, como não tinha um plano pré-definido para enfrentar esse evento que já se tinha condições de saber que poderia ocorrer, o ONS só pensou em evitar o mini-apagão. Mas acabou provocando um apagão monstro.
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Malu Gaspar
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