O papel do governo
Para quem acredita que o mercado pode tudo (ou quase tudo), a China é uma decepção. O governo chinês tem um papel - direto ou indireto - crucial em tudo o que se faz por aqui. Qualquer empresário ou executivo que queira se dar bem na China terá de aprender a fazer o guanxi - criar uma rede de relacionamentos que inclui representantes do Partido. Negociar isoladamente na China também é um atalho para o fracasso. Chineses gostam de negociar em bloco. E esperam ver governo do outro lado da mesa. Especialistas em China são unânimes em afirmar que o papel do governo brasileiro na expansão das empresas nacionais no mercado chinês é crucial. É duro - mas é assim que as coisas funcionam por aqui.
Por Cláudia Vassallo
Publicado em 26/09/2008 - 12:29
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No topo do mundo 1
Na terça-feira, 27 de setembro, tive uma reunião com o executivo catarinense Conrado Engel, responsável pelas operações de varejo do banco HSBC em 19 países asiáticos. A reunião foi no topo da sede do banco para a região, de onde se tem uma vista privilegiada da Hong Kong, um dos principais centros financeiros da Ásia. O assunto, claro, foi a atual crise financeira internacional e suas conseqüências para a economia mundial.

Engel, um sujeito informal e afável que há pouco mais de dois anos tornou-se um grande nome das finanças mundiais, foi objetivo em sua análise. Para ele, a situação de turbulência e tensão nos mercados se prolongará, pelo menos, até o final de 2009. E os bancos - sobretudo os americanos - terão de voltar aos fundamentos básicos do mercado financeiro. (O HSBC, hoje o maior banco do mundo em valor de mercado, teve os efeitos da crise minimizados graças a sua histórica e grande presença na Ásia.) A crise também teve efeito sobre o jogo de forças global. Segundo Engel, quando a tempestade terminar, a China emergirá ainda mais fortalecida.

Em tempo: do topo do prédio do HSBC foi possível perceber a aproximação de um tufão que atingiu Hong Kong na noite de terça-feira. Numa escala que vai até 10, o tufão de ontem atingiu o nível 8. No meio da tarde já havia lojas fechando e o taxis começaram a rarear. Barcos foram recolhidos e mais de 80 vôos cancelados (inclusive o que levaria os integrantes da Missão EXAME a Dubai.) O tufão passou durante a noite. Hoje pela manhã a vida em Hong Kong voltou ao normal.
Por Cláudia Vassallo
Publicado em 25/09/2008 - 17:17
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No topo do mundo 2
A importância da China cresce à medida que a crise financeira avança. Os olhos do mundo estão hoje voltados para duas direções. Uma é a dos Estados Unidos, um país atônito diante da rapidez com que os problemas aumentam de proporção. Outra é a da China - e, mais amplamente, a da Ásia. A China tem críticos espalhados pelo mundo - gente que, com razão, aponta para os problemas ambientais, para a desigualdade social, a censura e o governo de partido único do país. Além de indignação, a China desperta temor. Muita gente torce para que seu crescimento econômico não se transforme em poderio político - e estamos falando do poderio de um país com 1,3 bilhão de habitantes, com histórico expansionista. Mas o fato é que, hoje, o melhor para o mundo é que a China se mantenha de cabeça em pé e continue atuando como uma espécie de amortecedor da crise. A tendência é que o país se volte cada vez mais para seu gigantesco mercado interno, garantindo, assim, que uma parte da economia global continue a girar.
Por Cláudia Vassallo
Publicado em 25/09/2008 - 17:16
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No topo do mundo 3
Para Conrado Engel, do HSBC, esse provável fortalecimento da China poderá beneficiar o Brasil de várias formas. Uma das grandes preocupações do chineses é que a carência de recursos naturais seja um obstáculo instransponível ao crescimento futuro. A China tem pouca água - e menos ainda água potável (os rios chineses são extremamente poluídos). A energia disponível é suja. Cerca de 70% da matriz energética é baseada em carvão mineral, o combustível das termoelétricas. A falta de água compromete a agricultura e o crescimento da produção de grãos que vão alimentar as milhões de pessoas que o governo pretende tirar da miséria e dos campos nos próximos anos. É tudo o que o Brasil tem a oferecer. E não apenas eles. Os árabes já estão alugando terras no Sudão para garantir o fornecimento de comida.

Já ficou claro (e aqui dou minha opinião) que a China sabe comprar. Agora, é o Brasil que precisa aprender a vender. Isso vai ter de passar pela modernização dos negócios em vários setores e pela visão de que há áreas da indústria brasileira que podem ser fortalecidas pelo ganho de escala.
Por Cláudia Vassallo
Publicado em 25/09/2008 - 17:15
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Chinelos e camisetas
Foi Lawrence Chen, COO e um dos acionistas da Stella International, quem nos recebeu na unidade de Donnguan. Ao contrário de muitos executivos chineses, ele fala um bom inglês e parece ser uma pessoa cosmopolita. Na aparência física, porem, Chen se confude com os empregados de sua fábrica. Usa chinelos de borracha azuis e a camiseta polo que serve de uniforme para os demais. É possível que, no Brasil, não fosse levado a sério. Na China, Chen é um dos mais respeitados fabricantes de calçados do país.

Por Cláudia Vassallo
Publicado em 24/09/2008 - 09:57
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Cláudia Vassallo é diretora de Redação de EXAME e está participando da missão Exame na China.


 
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