Por Isabel Versiani
BRASÍLIA (Reuters) - O Banco Central anunciou nesta segunda-feira a saída de Mario Torós da diretoria de Política Monetária, num movimento já esperado pelo mercado financeiro.
Após dois anos, Torós deixa o cargo, a pedido, por motivos pessoais, segundo nota do BC.
O presidente da instituição, Henrique Meirelles, encaminhará ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a indicação de Aldo Luiz Mendes, ex-vice-presidente do Banco do Brasil, para ocupar o posto.
Mendes, 51 anos, atualmente preside a Companhia de Seguros Aliança do Brasil. Entre 2001 e 2009, ele esteve no Banco do Brasil, onde ocupou a diretoria de Finanças, depois foi diretor de mercado de capitais e vice-presidente de Finanças, Mercado de Capitais e Relações com Investidores.
Doutor em economia pela Universidade de São Paulo, ele já foi vice-presidente da Associação Nacional das Instituições do Mercado Financeiro (Andima) e integrou os conselhos de administração da BM&F e da Central Interbancária de Pagamentos (CIP).
Para Christopher Garman, analista do Eurásia Group em Washington, a indicação de Mendes foi um "sinal de continuidade."
"Aldo Luiz Mendes tem uma boa reputação. Acho que é alguém com experiência na operação de títulos", afirmou. "Então, não acho que vai impactar tremendamente a percepção dos investidores."
Especulações de que Torós teria manifestado interesse em deixar o BC circulavam entre investidores, mas o processo de saída foi acelerado depois de uma entrevista ao jornal Valor Econômico, publicada no dia 13 de novembro, em que detalhou os bastidores da crise global no Brasil.
Torós, economista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), era diretor de Política Monetária no BC desde abril de 2007. Ele substituiu Rodrigo Azevedo no cargo.
"Aldo é uma figura de carreira, não é de partido. Não vejo risco político na indicação", afirmou Silvio Campos Neto, economista-chefe do Banco Schahin. "É muito pouco provável neste momento que haja uma guinada na política monetária do BC."
REVELAÇÕES POLÊMICAS
Na última sexta-feira, a entrevista de Torós ao Valor dominou as rodas de conversas entre analistas e profissionais do mercado financeiro, nem tanto pelo efeito que poderia ter nos negócios, mas pelo ineditismo de um diretor do BC em relatar informações internas da instituição.
Na visão do sócio de uma asset em São Paulo, que preferiu não ser identificado, a atitude foi uma forma de mostrar ao país que o BC havia agido, sim, para evitar um impacto maior da crise global sobre o país.
"E agido de forma correta, não adotando medidas que nos remetem ao passado, como a adoção de controles de capitais", disse, avaliando ser difícil que Torós não tivesse conversado com Meirelles sobre a entrevista.
O estrategista de uma importante corretora em São Paulo, que também pediu para não ser identificado, discorda e avaliou a entrevista como um meio de Torós "dourar a pílula" quanto à atuação do BC na crise em um momento que ele já estava deixando a instituição.
Outro estrategista, de um banco em Nova York, repudiou a atitude por expor decisões tomadas em sigilo e envolvendo outras pessoas.
Para o economista-chefe de uma relevante corretora no Rio de Janeiro, que também falou sob a condição de anonimato, as declarações de Torós sugeriram que ele não estava mais se importando com as opiniões tanto do presidente do BC como do próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em um claro sinal de que sua permanência na instituição estava chegando ao fim.
Para ele, isso deve adiar a saída de Mario Mesquita, diretor de Política Econômica do BC, que assim como Torós vinha sendo citado em reportagens como prováveis demissionários da instituição.
(Reportagem adicional de Daniela Machado, Paula Laier e Aluísio Alves em São Paulo e de Walter Brandimarte em Nova York)