Por Marcílio Souza
São Paulo - O presidente da operadora da Bolsa de Nova York, a Nyse Euronext, Duncan Niederauer, afirmou que o Brasil faz parte de um seleto grupo de países que considera estratégicos e com os quais a Nyse promove diferentes formas de parcerias. "O Brasil está num grupo muito pequeno que escolhemos como parceiros estratégicos, que inclui Catar, no Oriente Médio, Japão e China, na Ásia, e Índia", afirmou hoje o executivo, que visita o Brasil pela primeira vez.
Segundo ele, estas parcerias às vezes tomam a forma de investimentos, às vezes de compartilhamento de tecnologia, às vezes de abordagem, em conjunto com as bolsas locais, das melhores companhias de um determinado país. "Portanto, para cada um desses países, nossa relação difere", explicou. "No caso do Brasil, há uma oportunidade real de ajudar a tornar a bolsa global, como nós já nos tornamos, por meio da oferta de todas as nossas tecnologias e isso inclui ferramentas para os clientes, serviços de rede e distribuição", disse. De acordo com Niederauer, estas ferramentas permitem às bolsas vender seus produtos não apenas localmente, mas também globalmente.
No caso da Bolsa brasileira, a BM&FBovespa, essa parceria se dá principalmente por meio de compartilhamento de expertise tecnológica. Desde 1997, a Bovespa utiliza a plataforma NSC, sistema de negociação eletrônica da Nyse.
A uma pergunta sobre o possível efeito positivo da queda dos juros sobre o mercado de ações do Brasil, Niederauer, que vai se reunir com empresários, autoridades governamentais e representantes de agências reguladoras no Brasil, disse que seu principal conselho seria fazer o possível para educar os investidores, de forma a que entendam o que estão fazendo. "Boa parte da crise nos EUA resultou do fato de que muitos investidores não tinham tanto conhecimento dos conceitos como imaginamos que tivessem", opinou. "Muitos norte-americanos não entendiam conceitos básicos de finanças e hipotecas", alertou.
"Eu sei que há programas já em andamento aqui e que o desenvolvimento do mercado atrai o investidor médio. Eu acho que o Brasil está agindo com responsabilidade de modo a se assegurar que esses investidores se conscientizem sobre a situação do mercado financeiro", afirmou.
O executivo considera o avanço tecnológico como um dos focos da Nyse Euronext na tentativa de conter a perda de fatia de mercado sofrida recentemente nos EUA. "Fizemos um grande investimento em tecnologia, porque vimos que parte dos problemas que tínhamos se devia a isso, (ao fato de que) não tínhamos a capacidade e a velocidade de que precisávamos", disse ele, acrescentando que há mais de 30 espaços onde ações podem ser negociadas hoje nos EUA.
Parte da perda de espaço da Nyse pode ser atribuída às chamadas ordens flash, pela qual as bolsas dão a alguns operadores selecionados uma rápida visão de ordens de negociação de ações antes que elas sejam roteadas para outras bolsas. A SEC (comissão de valores mobiliários dos EUA) estuda proibir essa prática, que foi banida há alguns anos pela Nyse e da qual Niederauer é um crítico ferrenho. "Algumas bolsas, com as quais concorremos nos EUA, estão promovendo práticas que favorecem um grupo pequeno de pessoas à custa de muitas", disse ele. "Discutimos com a SEC o que deve ser um mercado competitivo, colocamos que as ordens flash podem ser algo desatualizado, ou talvez inapropriado, e pedimos à Comissão que examine o que deve ser exigido para se administrar uma bolsa nos EUA", afirmou.
Niederauer ressaltou que ordens flash são diferentes das chamadas negociações de alta frequência ("high frequency trading"), que, segundo ele, serão o grande formador de mercado no século 21, contribuem para o aumento da liquidez e devem ser encorajadas. "É o mesmo tipo de negócio que se fazia há dez anos, mas agora de uma forma muito mais tecnológica. Isso não está criando uma vantagem desleal porque qualquer um pode investir nessas tecnologias e em capital humano e decidir entrar nesse negócio", afirmou.